A decisão da Confederação e o choro triste dos Camarões

No sábado passado a África do Futebol, e mesmo Mundo, viu, ouviu e leu na ou pela imprensa o ministro dos Camarões, que é o responsável pela Comunicação e porta-voz do Governo, Issa Tchiroma Bakary, a lamentar , quase com lágrima nos olhos, a decisão da Confederação Africana de  Futebol , de retirar daquele país, a organização da Taça de África as Nações (CAN) em 2019. Para si e  alguns compatriotas seus...doeu e ainda dói a medida!

No sábado passado a África do Futebol, e mesmo Mundo, viu, ouviu e leu na ou pela imprensa o ministro dos Camarões, que é o responsável pela Comunicação e porta-voz do Governo, Issa Tchiroma Bakary, a lamentar , quase com lágrima nos olhos, a decisão da Confederação Africana de  Futebol , de retirar daquele país, a organização da Taça de África as Nações (CAN) em 2019. Para si e  alguns compatriotas seus...doeu e ainda dói a medida!
O ministro até apodou a decisão da Confederação como uma \"flagrante injustiça\", \"consternação\" , \"surpreendente desrespeito aos enormes investimentos realizados pelo seu país em belas infra-estruturas modernas visíveis a todos\".
Quem cofre um revés, muitas vezes contra-ataca sempre com farpas incediárias, mas, para mim particularmente - porque verifiquei de outras fontes - a decisão da Confederação Africana de Futebol em retirar a Taça de África das  Nações de 2019 dos Camarões  se deve a outros temores.
Sei que o Comité Executivo da CAF se reuniu na sexta-feira passada em Accra, capital do Gana, onde reviu um relatório das duas últimas visitas de inspecção da Confederação, sobretudo em redor de uma vistoria às condições de segurança a infra-estruturas, estádios e alojamento que levantou muitas questões.
Contudo,  já  a 29 de Setembro deste ano, num encontro do Comité Executivo, ocorrido em Sharm el Sheikh, Egipto, a Confederação observou o que qualificou de \"um atraso significativo na conclusão da infra-estrutura\",  necessário para a realização da Taça das Nações nos Camarões.
Naquela altura apontou mesmo que a situação de alta segurança, de pessoas e bens, nos Camarões,  estava muito tensa, já que o país sofre persistentes ataques dos terroristas/jihadistas do Boko Haram no Norte do país e um conflito contínuo entre o exército e os separatistas nas duas regiões de língua inglesa do país.
São obviamente fundados sinais de a organização terrorista  Boko Haran poder \"infernizar\" , com sangue e luto, a competição. E o futebol não pode ser nem mote à palcos de sangue, dor e luto. Eu, particularmente, aplaudo a medida da Confederação!
Não possso, nem podemos olvidar o seguinte: nós aqui mesmo em Angola, há dez anos, vimos a África e Mundo, que vibram com o futebol, a confrontarem-se com uma inesperada \"triste nova\". Em 2010, Angola tinha tudo arrumado para abrir a Taça de África das Nações...um abominável ataque das forças da FLEC teve lugar contra a selecção do Togo que entrava em Cabinda pela região congolesa de Ponta Negra.
Então a Confederação Africana de Futebol e a Federação Internacional de Futebol Associado, desde aquela data, tomaram providencias para evitar que países organizadores estejam na mira de organizações terroristas, como é hoje essa sanguinária organização Boko Haran, que estende a suas macabras acções, da Nigéria a países limítrofes. Tal é o caso geográfico dos Camarões.
Até àquele data  do ataque contra a selecção do Togo - dia 8 de Janeiro de 2010 - a história do futebol africano, a nível da Taça das Nações, não inscrevia, nos seus anais, acto bárbaro igual.
Compulsando os arquivos dá para ver e saber que só em 1990 é que a África viu uma Taça das Nações a ser \"abalada\"”:  a Líbia  não se fez representar, porque, na véspera do pontapé de saída, deu-se o assassinato do presidente Anouar El-Sadate.
Depois,  a Argélia acolheu a competição, no meio de um clima agitado. O poder político instituído lutava contra a Frente Islâmica. Havia manifestação de estudantes, reprimidas selvaticamente pelas forças armadas.
Nesse ano, o Egipto recusou-se a participar, só tendo cedido mais tarde, devido à insistência da Confederação Africana de Futebol. O Egipto enviou então a sua equipa nacional que \"contra\" a Argélia jogou uma final onde diversos objectos foram atirados ao campo.
Foi num ambiente em que se deu conta no interior do estádio - infiltrados nas tribunas - a presença de militantes da Frente Islâmica,  esse movimento que foi oponente do então presidente argelino  Chadli Bendjedid.
 Portanto, agora nos Camarões, a boa decisão da Confederação aconteceu numa altura em  que admiravelmente o já longevo e ancião Paul Biya era reinvestido como Presidente dos Camarões, diante da Assembleia Nacional para o sétimo mandato, após vencer as eleições realizadas em 7 de Outubro com 71% dos votos, já com 85 anos de idade no meio de alta contestação política e social.
Hoje, Pau Biya se consolida como o segundo presidente, não só da África, mas do mundo, que está há mais tempo no poder - 36 anos consecutivos -, atrás apenas de Teodoro Obiang, de Guiné Equatorial...
Portanto, a 32ª edição da Taça de África das Nações, que aconteceria de 15 de Junho a 13 de Julho de 2019, nos Camarões, pode rolar noutro países e ainda bem que a Confederação abriu as portas a candidaturas.
Mas, quanto a mim, oxalá decorra sempre fora da região do Magreb, pois, como se sabe, o Marrocos já está disparado por todos os lados com uma quase condescendência sobre sua capacidade de organizar a competição. Até  já anunciou que é um candidato, mas... muitos países ao Sul do continente continuam a denunciam uma hegemonia exibida pelos países do Magreb nas instituições do Confederação.
António Félix