Nuances de futebol e partida que acabou em confusão

É consabido, que o imaginário angolano referido ao desporto é atravessado por várias estórias e estorietas, algumas reais e outras fictícias. 

É consabido, que o imaginário angolano referido ao desporto é atravessado por várias estórias e estorietas, algumas reais e outras fictícias. 
Com efeito,  ao embrenharmos no tema em apreço, voltamos a folhear a “Antologia de contos angolanos - dos desertos, dos sonhos, das travessias e do futuro”, demos de caras com as nuances de futebol nos textos de Alcântara Monteiro, Pedro Sobrinho e de António Fonseca, este último,  já tem uma alusão  da prática do futebol na “Crónica de um tempo de silêncio”, editada pela UEA, em 1988:
 “Mas os dias passavam e vinham novas loucas correrias. Caça de pássaros e sardões, figos e histórias do antigamente, futebol perto da casa do Sô Papo Alfaiate...”, fizeram -nos lembrar os tempos da bola de trapos ou de “mica”, quando da nossa perdida meninice que não volta mais, de tão resolutamente nostálgica….
No caso de Alcântara Monteiro, um membro da \"Geração da  Mensagem\" raramente referenciado, talvez devido à  parca produção literária, em “Eu vos conto um conto” pinça o episódio de  Simão que corre como um atleta satisfeito com o seu mano mais novo, a quem cabe diariamente a sua guarda e que por vezes, não o deixa jogar a bola de farrapos, devido à  choramingueira constante:
“Satisfeito consigo próprio,  pulando alegre como a lebre, ou correndo como a gazela, ia acompanhar os restantes garotos da sanzala no assalto aos cajus e às gajajas das redondezas, no bombardeamento dos telhados de zinco dos vizinhos, na caça aos pássaros, à fisga, e nos intermináveis encontros de futebol com bola de meia, entre a sua ‘linha’ a dos  ‘do clube do Telmo’ e a dos ‘do clube do Melão e do Catuto’.”
Quanto ao jogo jogado, propriamente dito, o narrador destaca que “eis que  de súbito, uma avançada fulgurante da ‘linha’ do Mateus é cortada pelo aparecimento do polícia -- o antipático ‘xui’--debandada geral”, observa que “ Mateus , afogueado empoeirado , esfolado -- porque o jogo está rijo – , vai à casa da vizinha, a Xica, ver se o mano ainda está “temoso” .
Atente-se nesta última expressão, o recurso à linguagem coloquial dos musseques, a corruptela dos falares da gente humilde do nosso povo que fez escola na nossa literatura, na pena dos poetas Viriato da Cruz e António Jacinto, sobretudo, com os prosadores Luandino Viera, Boaventura Cardoso e Jofre Rocha, a marcarem a ruptura sócio -linguística com o português vernáculo falado em Portugal, ou pelo menos, pelas elites assimiladas da colónia de Angola, nomeadamente, em Luanda, espaço em que ocorre a estória vertente.
Enquanto em “Temoso” temos uma corruptela do português, em o  “ ’o xui’ foi  e não levou a bola (…)Tréguas já é tempo de pôr fim ao desafio que a sua ‘linha’ vence.”
Nesta perspectiva, com o recurso ao termo ‘xui’ estamos em presença de um calão (Xui) que já vigorava, afinal nos anos 50, tempo em que o autor escreveu a estória em causa.
Já no conto “Terra de Sol”, de Pedro Sobrinho, além da “luta livre” entre a rapaziada, fixa-se o episódio de um jogo de futebol num bairro periférico da capital, por sinal uma constante ainda no areal dos nossos subúrbios,  com pedras e paus improvisados para as balizas, a viabilizar assim a prática desportiva entre crianças, adolescentes e jovens, um potencial que devia ser explorado pelas autoridades vocacionadas ao nível municipal e pela classe empresarial, - quais olheiros do passado!
O narrador de P.Sobrinho enfatiza “o choro compulsivo” do miúdo posto fora de combate, e “a desaprovação das mulheres” e respectivas “ palavras de consolo”.
Reportando-se directamente à partida de futebol capta-se o estado psicológico dos contendores que perderam o jogo: “O vexame, a derrota,  quase `a vista dos rapazes da bola, três pulos do campo do Pitra.
E, não se distingue a vítima. O amplexo é forte, a dor única. Os golpes do Malanza fazem sofrer Carlinhos, fazem chorar Beto. A rapaziada da bola  chega-se.”
Mas o tira- teimas não fica por aqui. No conto de António Fonseca “Primo Narciso”, uma partida de futebol termina em confusão, muito por culpa de um chuto. Mas, não é só no futebol de bairro que há confusão no campo ou fora dele.
As zaragatas também abundam no desporto federado. (Por isso, a imposição de uma série de regras obrigatórias, como a existência de uma equipa de arbitragem que puna as faltas  e distribui cartões amarelos ou vermelhos, não poupam mesmo às vezes, a ousadia do banco quando se mostra inconveniente, estende a sanção a treinadores e seus “muchachos”, - conforme a gravidade da infracção.)
“Quem me atirou essa bola?” - vociferou “Mankidi que prendera a bola”.
 Entre os miúdos \"armados\"  em grandes jogadores instalou-se o medo: “Mas, o miúdo , dos seus 12 anos , talvez 13, arranjou coragem e foi ter com Man Kidi ”, saudou -o com todo o respeito devido: “Bo(a) (mais uma vez o recurso sócio -linguístico acima aduzido, com o falante a engolir o “a”) tarde tio…desculpa.
 Eu é que chutei…e foi golo e a bola passou. Estou a pedir ao Kota para me dispensar a bola e me desculpar…” Sempre agressivo Man Kidi não quis saber: “pega nas orelhas  do miúdo, levanta-o e atira-o para o chão, dá-lhe dois ponta pés  e enfia-lhe duas chapadas.”
De drama em drama entra em cena o Narciso como defensor do garoto, que ao ver a vítima a chorar, indignado foi pedir satisfações à Man Kidi, que dada a sua descompostura, traduzida em várias ameaças ao potencial adversário, perdia a sua má fama de brutamontes em dois tempos:
Naquele dia fatídico, o  todo poderoso da sanzala que varria meio mundo, não importasse se as vítimas fossem crianças, jovens, mulheres ou velhos, o seu último combate, ou seja, o seu reinado de violência gratuita. Acabou o terror no bairro, redondezas e cercanias.
Levou  dois golpes fatais de Narciso, que assistia à partida de futebol do mais novo Afonso e seus amigos das habituais tranquinices diárias.
 O ilustre desconhecido, contra as advertências dos circunstantes, nomeadamente, dos garotos que sonhavam serem jogadores de verdade no futuro e dos familiares do violentado, se ofereceu como defensor do garoto banhado em lágrimas, destronou Man-Kidi, depois de várias ameaças a si dirigidas por este último que respondeu com bastante calma , mais por ponderação do que receio.
 Narciso não se deixara intimidar:  assestou duas quedas ao adversário triunfalista e que lhe deixou estatelado no terreno do jogo, ante a admiração geral.
De vergonha, o latagão derrotado trocou de morada, foi residir num outro bairro, teve de fugir, forçosamente, dos apupos constantes dos miúdos jogadores, que  passaram a jogar a bola em paz, animados do sonho de virem a ser um estrela do Girabola, como os  que marcaram épocas.
Finalmente, “Man Kidi, de cabeça baixa, lá se foi e desapareceu do bairro. Fora-se a sua fama e nascera a do  Narciso  que corria de boca em boca “-- remata o narrador recriado por A. Fonseca, de quem esperamos novas propostas literárias com essa e outras temáticas ligadas ao futebol e não só, ainda que inspirados nos jogos do lúdico que enformam o vasto filão espiritual da nossa rica tradição oral.
Norberto Costa