Um olhar sobre as infra-estruturas

Quando se fala do desenvolvimento do desporto, torna-se imperativo focar também o olhar sobre as infra-estruturas de apoio ao sector e às diferentes modalidades. São aspectos que não podem estar dissociados um do outro.

Quando se fala do desenvolvimento do desporto, torna-se imperativo focar também o olhar sobre as infra-estruturas de apoio ao sector e às diferentes modalidades. São aspectos que não podem estar dissociados um do outro.
E, nesse olhar atento, sobre o aquilo que traduz o actual estado das infra-estruturas desportivas do país, há muito que se lhe diga. Sobretudo no que concerne ao estado de degradação e abandono a que muitas destas estão hoje votadas.
A título de exemplo, pode-se buscar o caso de três dos estádios de futebol, construídos por ocasião da realização do Campeonato Africano das Nações (CAN) que o país albergou nas cidades de Luanda, Cabinda, Benguela e Huíla, respectivamente.
Ao contrário do Estádio Nacional 11 de Novembro, em Luanda e que acolheu jogos do Campeonato da I Divisão, os das demais províncias não servem hoje de apoio ao desenvolvimento do desporto-rei. Passam, portanto, por uma “travessia no deserto”.
O mais caricato no meio de tudo isso, é que a situação se desenrola ante o olhar impávido das autoridades das respectivas províncias. Nem os Governos locais e nem tão pouco os órgãos afins fazem alguma coisa para inverter o quadro.
Houve, ainda, tempos em que estes estádios que albergaram a grande montra do futebol continental que Angola organizou em Janeiro de 2010, serviam para a realização de cultos de várias igrejas. Serviam, igualmente, para actividades políticas, culturais e outras, mas menos para o futebol, que é o desporto das multidões.
Nos últimos dias, o “Jornal de Angola”, título que a par deste, do “Jornal de Economia & Finanças” e “Jornal Cultura”, é controlado pela Edições Novembro, reportou em duas das suas publicações diárias, a situação do estado de abandono e degradação a que estão votados alguns pavilhões desportivos. Benguela e Cabinda foram as regiões focadas.
Na cidade das “Acácias Rubras”, por exemplo, a fachada principal do pavilhão que atende pelo mesmo nome e o outro pelo Matrindindi, viraram hoje locais de depósitos de resíduos sólidos e com todas as consequências daí decorrentes.
Mau cheiro, moscas, ratos, baratas, bem como outros insectos e bichos, fazem desta estrutura hoje por hoje, a sua moradia. Por arrasto, os praticantes das modalidades de salão que utilizam ambos recintos, vêm-se obrigados a competir perto do lixo.
E, como um mal nunca vem só, e carrega consigo outros, São Pedro decidiu abrir as torneiras. As chuvas que se abatem ultimamente sobre o país e na região, em particular, agravam ainda mais a situação. Com isso, agrava-se também o quadro epidemiológico.
Da coabitação com o lixo, propagam-se doenças como as respiratórias agudas, diarreias, malária, febre tifóide e tantas outras. Mas nem com isso, os órgãos de direito fazem alguma coisa para inverter o quadro. Pelo contrário, remetem-se ao silêncio.
Na província mais ao norte do país, o Pavilhão Multiusos do Tafe, localizado na capital local, também se apresenta em avançado estado de degradação.
A infra-estrutura que serviu de apoio ao Campeonato Africano das Nações de Basquetebol e de Andebol, que o país albergou em 2007, decai dia após dia, mas ainda assim ninguém move uma única palha para inverter o quadro.
As autoridades locais olham de forma impávida para a situação, enquanto as estruturas destas clamam urgentemente por reabilitação. O Pavilhão do Tafe apresenta-se hoje num estado desolador. As paredes do edifício estão todas cheias de fissuras. Como se não bastasse isso, muitas das Associações antes aí sediadas, encontraram outros refúgios. Isto é mau e em nada abona para o desenvolvimento das modalidades de salão.
Apesar do estado lastimável desta, vislumbra-se uma luz no fundo túnel. O Governo da província, no quadro do seu programa de acção para o quinquénio 2017/2022, prevê apostar na construção e reabilitação de várias infra-estruturas. E que venha esse apoio.
Por outro lado, os pavilhões locais do Sporting, do Lombolombo, Gika, Comandante Dangereux, Barão Puna e do Cabassango que deviam impulsionar o desenvolvimento das modalidades de salão, carecem hoje igualmente de reabilitação urgente.
E por falar de pavilhões multiusos, na Huíla o cenário não foge muito daquilo que é a realidade de Cabinda e Benguela.
Três dos que existem na capital da província, Lubango, designadamente o da Senhora do Monte, o seu Anexo 2 e um outro construído no tempo colonial, apresentam-se nesse momento num estado que não é o mais salutar. Clamam por reabilitação.
O primeiro foi construído por ocasião do Afrobasket de 2007, o Anexo 2 surgiu face à necessidade de acolher treinos das selecções participantes ao “Africano” de Andebol em 2008, ao passo que o erguido no tempo colonial, há muito apoiava as modalidades de salão. Por incrível que parece o que tem mais tempo de vida é o mais seguro.
O actual director da Juventude e Desportos da Huíla, Joaquim Barbante Tyova, admite serem necessários 5 milhões de kwanzas por mês, para fazer face aos encargos decorrentes da manutenção e outros para manter o pleno funcionamento destes.
O cenário descrito, em relação as infra-estruturas desportivas destas três províncias do país, ocorre um pouco por quase todas as outras. No Bié, por exemplo, muitos dos recintos que apoiavam o desporto foram vandalizados pelos amigos do alheio.
Localmente há espaços que deviam servir o desporto e que se converteram actualmente num manto de delinquência. Isso, periga a sociedade.
Por isso mesmo, impõe-se fazer um trabalho intenso para a manutenção dessas infra-estruturas que hoje estão degradadas e votadas abandonadas. O Estado, os Governos Provinciais e órgãos afins têm quota responsabilidade nessa tarefa. Isso é inequívoco.
Igualmente é inequívoco que se faça um melhor aproveitamento das infra-estruturas desportivas. Custaram incalculáveis somas de dinheiro ao Estado e por isso têm de se evitar o desperdício, deixando-as à sua sorte. Tem de se responsabilizar as pessoas.
Só assim o desporto e as diferentes modalidades avançam, em termos de projecção. A formação e massificação desportiva surgem aqui, também, como aspectos colaterais desse projecto. A seguir vêem os louros para o nosso desporto. Disso, estou convicto…
SÉRGIO V.DIAS