Campo do Felício gera polémica

O conhecido campo pelado do Felício volta a ser motivo de discórdia entre o empresário que deu o nome ao espaço e a comunidade local. Pela segunda vez, a discussão pela posse do recinto volta a estar no centro de uma acérrima polémica, com recurso à queixa na Administração Distrital da Maianga, de onde se aguarda por uma solução.

O conhecido campo pelado do Felício volta a ser motivo de discórdia entre o empresário que deu o nome ao espaço e a comunidade local. Pela segunda vez, a discussão pela posse do recinto volta a estar no centro de uma acérrima polémica, com recurso à queixa na Administração Distrital da Maianga, de onde se aguarda por uma solução.
 No centro do diferendo está o facto do empresário Felício reclamar a propriedade do espaço, e os moradores discordarem com veemência da atitude, sob o pretexto de um aproveitamento por parte do comerciante, pelo facto do campo ter como referência o seu nome.
O \"braço de ferro” leva 15 anos, o campo sobrevive até hoje dada a resistência dos jovens desportistas do bairro Sagrada Esperança, ao Prenda, que tem no local o único espaço para praticarem futebol aos fins-de-semana.
\"De modo oportunista e com o beneplácito da administração local, o cidadão Felício diz ser o proprietário do espaço, onde hoje além de parque de estacionamento às noites, cobra uma taxa e autorizou a colocação de roulotes\", deplorou Jorge Falcão, porta voz do grupo de protesto da comunidade do bairro Sagrada Esperança.
Disse mais adiante, que \"foi igualmente implantado um posto policial e todos os impeditivos para prática do desporto que é o fim para o qual o local existe. Solicitamos que seja reposta a justiça\", sublinhou. Há 15 anos o local chegou a ser cadastrado para a construção de uma escola. As obras conheceram o início, mas alguns signatários do bairro solicitaram uma audiência ao ministro dos Desportos, na altura Justino Fernandes, que manifestou-se triste e solidário com a causa dos cidadãos, deslocou-se ao local e prometeu que ia falar com o titular da pasta da Educação, na ocasião João Bernardo, que acedeu ao pedido e suspendeu a obra.
\"Nessa altura, o senhor ministro da Educação usou a seguinte expressão: se no futuro às crianças deste bairro clamarem por escola, os signatários desta petição vão ser chamados, afim de justificarem\", recordou Jorge Falcão.
 Na constatação feita pelo Jornal dos Desportos ao actual estado do Campo do Felício, ao Prenda, é visível os sinais de transformação do espaço para zona de comércio. O empresário tornou o campo numa clara fonte de rendimento pessoal, no período da noite serve de parque de estacionamento e durante o dia abre as portas ao comércio de bebidas e comidas.
A juventude local não encara com agrado, o facto do espaço estar a ser utilizado como se de sua propriedade se tratasse. Garantem estarem decididos a lutar pela recuperação do campo, em benefício da comunidade.
Preocupados com a colocação de roulotes e contentores para venda de cimento no local, os jovens desportistas depois de uma reunião, resolveram apresentar uma exposição ao Governador Provincial e ao administrador do Distrito da Maianga.
 \"A nossa preocupação consiste no facto do local, ao invés de servir para a prática de desporto comunitário, está transformado actualmente em parque para estacionamento de viaturas, e estão a ser instalados também contentores para a venda de material de construção, barracas e roulotes, onde além da venda de produtos, regista-se a prática da prostituição\", afirma o porta voz da comunidade de jovens do bairro.
Segundo Jorge Falcão, o grupo de protesto decidiu depois do encontro a necessidade de mais diálogo com as autoridades, no sentido de produzir um documento para a Sua excelência o senhor governador provincial de Luanda, com cópia à direcção do distrito urbano da Maianga.
\"É pretensão do grupo, agir com urbanidade possível,  sensibilizar a comunidade local e não só, para salvar um dos espaços que ainda restam para a prática do desporto e do futebol em particular na comunidade. Vamos melhorar o que está certo e corrigir o que está errado\", rematou o também defesa direito da equipa de velhas guardas do Prenda.
 Igualmente preocupados com a situação, estão vários outras pessoas frequentadores do campo. Miguel Simão, 12 anos, diz não ser justo que o empresário Felício decida acabar com o campo. \"Onde vamos jogar futebol?\", interroga-se o petiz, visivelmente triste.
Mais optimista em relação ao desfecho do caso, está o jovem Gabriel Machado, 23 anos. Diz estar quase seguro de que o comerciante muito dificilmente retira o espaço de prática desportiva aos jovens do bairro Sagrada Esperança.
\"Isso, não é de hoje. Sabemos que ele tenta fazer isso há já alguns anos. Sei que não consegue. A administração não permite que alguém venha aproveitar-se de um espaço que não é seu\", disse o jovem, também ele um dos signatários da carta remetida ao governador da Província de Luanda, Adriano Mendes de Carvalho.A nossa reportagem tentou contactar o empresário Felício, mas as tentativas foram goradas.


HISTÓRICO
“Foi sempre um local de referência”

O actual conhecido Campo do Felício tem um histórico semelhante ao vivido hoje. De acordo com Jorge Falcão, o espaço serviu sempre aos jovens praticantes do futebol do bairro Prenda.
\"Durante o tempo colonial, não havia um campo como tal. Havia um balneário público e sobrava um espaço pequeno que servia para se jogar futebol. O filho do comerciante português, o senhor Parafitas, que era o proprietário da loja, hoje supermercado Felício, teve sempre este cuidado\", clarificou.
\"O filho dele, o Beto, que até era guarda-redes, gostava de jogar futebol, por isso, fazia questão de conservar o espaço para a prática desportiva\", esclareceu com nostalgia o nosso interlocutor. Jorge Falcão considera, no entanto, no tempo colonial mesmo que não fosse campo, apenas num pequeno espaço os jovens utilizavam o local para jogar a bola, e até já chamavamos campo do Parafitas, em referência ao comerciante português.
 \"A referência ao nome Felício tem a ver com loja e não com a propriedade. A história do campo e que nós reclamamos e está toda escrita em papel\", assegurou.
\"Ele passou a ser campo do Felício, por ser o nome do comerciante que tinha uma loja que se chamava supermercado Felício. Como o campo está defronte ao supermercado, a referência passou a ser o campo do Felício\", justificou e disse que o nome implica propriedade.
\"A história do campo ganhar um nome como referência a um estabelecimento próximo não é de hoje, e não deve servir de pretexto para assumir a propriedade do recinto\", afirmou Jorge Falcão.