Benfica traça caminho para novos rumos

A revitalização administrativa e financeira é o principal objectivo da nova gestão do Benfica do Lubango. O presidente de direcção, Jacques da Conceição, aborda os caminhos para tornar o clube encarnado da província da Huíla num dos maiores do país. Em entrevista ao Jornal dos Desportos, revela a estratégia para chegar ao Girabola sem a condição de "mendigo", mas uma agremiação de sucesso.

Qual é a real situação do passivo do Benfica do Lubango?
É uma realidade dura e constrangedora quer para a actual direcção quer para a anterior. Não temos a hipótese de a amortizar. Precisaríamos de um valor superior a 25 milhões de kwanzas. O passivo mantém-se e o valor é oneroso.

O valor acumulado resulta de falta de estratégia na gestão dos recursos à disposição?
É preciso que esclareçamos a verdade. Devemos assumir que um erro humano faz sofrer muita gente e várias pessoas pagam o preço. O passivo parte do ano 2013 e o clube tinha patrocinadores. O dinheiro foi disponibilizado. Também ficamos sem respostas às perguntas feitas. A situação é melindrosa e complicada, quando não se tem o contrário. É difícil falar do passivo do Benfica com essas questões no meio.

Os trabalhadores são os mais prejudicados?

Temos trabalhadores acima de 50 anos que reclamam as pensões de reforma junto do MAPTSS pelos anos de trabalho prestado ao Benfica. Isso pressupõe que acumularam dívidas junto das entidades responsáveis pela segurança social. A actual direcção está solidária e manifesta um sentimento humano para com os nossos funcionários muitos dos quais sem a formação académica e técnico-profissional, mas deram o seu saber a esse clube. A situação preocupa-nos e incomoda-nos todos os dias. Colocamo-nos na posição de pessoas afectadas.

Como pensam inverter a situação do passivo?
Por ser um valor oneroso, temos de negociar com uma entidade que sinta o valor humano. Apresentamos a preocupação à sociedade civil, entidades governamental e empresarial para ajudarmos a salvaguardar a sobrevivência dessas pessoas. Não está fácil encontrar pessoas de boa vontade para colmatar o passivo.

Dos contactos mantidos, alguém mostrou-se interessado?
Confiamos no futuro, apesar de reconhecermos os constrangimentos da realidade económica actual. Estamos avançados com uma entidade comovida com o basquetebol que gostaria de ver uma equipa feminina nos campeonatos nacionais. A conversa teve início em Setembro de 2016 e vamos dialogar até a consumação da pretensão. Esse é o jeito que queremos enquadrar a pensão dos antigos trabalhadores.

O Benfica assinou contrato com a Total Angola. A empresa petrolífera pode cobrir o passivo do clube?... 
Quando assinámos o acordo com a Total Angola, apresentámos esse assunto, mas foi negado com justa causa. A nossa ligação começou em Fevereiro de 2018 e a empresa recusou custear as despesas de anos anteriores. Não seria de bom agrado, alguém pagar o que não usufruiu.

Em que consiste o acordo com a empresa Total Angola?
A Total Angola assume todas as responsabilidades desde a aquisição do material, o pagamento dos funcionários que vão trabalhar com as crianças, disponibilidade de meios de transporte e outras condicionantes da actividade desportiva dos escalões de formação que vão dos 8 aos 18 anos. O contrato tem a periodicidade de três anos.

O contrato com a Total Angola é o maior trunfo até agora evidenciado?
Existe uma realidade económica que não podemos descurar. Esse projecto não é só da direcção do Benfica, mas dos munícipes, sócios e desportistas huilanos. Não podemos perder mais um patrocinador, mas alavancar a parceria para que se abram novos horizontes com apresentação de novos projectos. Temos fé naquilo que vamos fazer. Através do Bloco 17, assinámos um acordo de cooperação com a Total Angola. Os benfiquistas estão de parabéns por disporem de uma marca gratificante. Celebrámos a 27 de Fevereiro último 86 anos de existência e sentimo-nos honrados e vencedores. Quando fomos empossados, não tínhamos o horizonte das acções. Passados 17 meses, o acordo sustenta um clube que estava desestruturado na funcionalidade das modalidades desportivas. Os oito desportos eram praticados de forma bafejada pela sorte.

Como conseguiram convencer a empresa petrolífera?
Com trabalho. Deus iluminou-nos e as nossas reclamações e súplicas caíram na graça, em função dos projectos enviados a várias empresas petrolíferas e não só. A Total Angola anuiu à nossa proposta.

Em que consiste a proposta?
Simplesmente na massificação desportiva.
A sua experiência na gestão desportiva foi fundamental para convencer os patrocinadores?
Honramos a inteligência e a elevada capacidade visionária de dois dirigentes do Benfica que faleceram no ano corrente. O acordo é um ganho da luta desses dois companheiros, hoje, finados. Eles foram partícipes do projecto. Actualmente, não se faz desporto sem patrocinador, pois é o suporte da sustentabilidade de qualquer clube.

OBJECTIVO   
Projecto é transformar atletas em activos

Que estratégia está definida para relançar o Benfica do Lubango?

Ao longo dos três anos, vamos massificar e potenciar muitas crianças de diferentes modalidades. O nosso projecto visa proteger os jovens após os 18 anos de idade. Não queremos vê-los a desaparecer do mosaico desportivo, mas transformá-los em activos do clube. Tenho fé que outros patrocinadores vão surgir à semelhança da Total Angola. Queremos inserir nos escalões de seniores das modalidades de basquetebol e de futebol os jovens formados no nosso clube. O nosso programa é de sustentação.

Quantas crianças estarão abrangidas no projecto?
O projecto tem a duração de três anos e o número de atletas vai crescer gradualmente. Nesse momento, controlamos 751 atletas. Em 2019, pretendemos ter 826 atletas e em 2020, queremos atingir 956 atletas. No fim do projecto de massificação, auguramos 3.198 crianças.

O crescimento implica recursos financeiros. Qual é o valor global do acordo com a Total Angola?
Não consigo dizer o valor global do acordo por uma única razão: trata-se de um sigilo entre as partes acordadas. Sabemos que é um valor inferior daquele que gostaríamos de receber para transformar o Benfica. O que está garantido são os meios necessários para o encaminhamento do projecto. A Total vai disponibilizá-los para a formação de atletas.

Que meios ou equipamentos vão ser adquiridos?
Vamos ter equipamentos, meio rolante, assistência medicamentosa e alimentar para os atletas durante os treinos e campeonatos provinciais. A presença de todas as modalidades por mérito nos campeonatos nacionais é uma certeza. O dinheiro não é essencial ou não preocupa a nossa direcção. O que nos satisfaz são os meios para que o projecto caminhe.

INFRA-ESTRUTURA
Relva aguarda fortificação no sub-solo

Aventava-se a possibilidade do Estádio do Benfica acolher os Jogos do Girabola 2018, em função do trabalho realizado. Em que pé está esta acção?

Estamos a trabalhar para que isso seja um facto. Nos nossos níveis de ansiedade, tínhamos perspectivado que, em Fevereiro último, teríamos aberto o campo, mas infelizmente, ainda estamos a fazer um trabalho muito sério. Temos a assistência de especialistas da área da agronomia e, na avaliação, constatou-se que a relva ainda precisa de fortificação. Qualquer alteração pode ficar danificada. O clube tem carência de meios financeiros e materiais. Não temos fertilizantes e cilindro, trabalhamos com apenas uma bomba de rega, quando o ideal seriam três. Uma bomba está avaliada em um milhão de kwanzas em Benguela.

O que está a ser feito para ultrapassar a situação?
Em função das chuvas que caem com regularidade, estamos a colocar o adubo na relva. As dificuldades retardam a reabertura do campo para os praticantes. Estamos esperançosos em dias melhores. Não queremos reabrir o campo e depois de dois meses voltar a fechar. Gostaríamos de ter o nosso gerador de 600 Kva a funcionar. Está parado a mais de quatro anos. É um recurso necessário do campo face à realidade da energia na cidade do Lubango. Se metermos as pessoas a treinar sem o gerador, vai danificar-se a relva. Estamos a cautelar a situação para que na segunda Volta do Girabola esteja operacional. Queremos ter tudo a funcionar.

O relvado está concluído?
O relvado do Estádio do Benfica do Lubango levou duas fases. Uma das partes do campo já tem um ano desde que a relva foi posta ao chão. A outra só fez um ano em Janeiro. Começamos a fazer o trabalho em Junho de 2016 e terminamos em Janeiro de 2017 por falta de recursos e pessoal suficiente para acelerar o processo. Temos um campo com a relva no solo a mais de um ano e noutro não. Sou apologista que os jovens nunca deviam jogar no pelado, principalmente no campeonato provincial de juvenis; os campos relvados deviam estar disponíveis.
A Huíla é conhecida pelo número de campos existentes. É possível trabalhar para melhores ganhos.

ORÇAMENTO
Total patrocina com 30 milhões de Kz

Jacques da Conceição realçou que vão procurar adquirir os meios em função da disponibilidade da Total Angola. A empresa petrolífera está obrigada a comprar os equipamentos e pagar os funcionários.
O valor total a gastar pela empresa petrolífera está em segredos de deuses. Jaques da Conceição deixou uma luz no fundo do túnel.
“Nesse preciso momento é-me difícil dizer se o projecto ficou em 10, 15 ou 30 milhões de kwanzas. Os meios estão planificados, devidamente cabimentados. Isso é o mais importante. Por causa da oscilação no mercado, preferimos falar de meios e não de valores”, disse.
Jacques da Conceição sustentou que “o Benfica do Lubango não vai gerir os recursos financeiros, mas vai implementar o projecto em função das necessidades apresentadas ao parceiro, no caso, a Total”.

PROGRAMA
Girabola está fora
do plano de acção


Em função do acordo e da massificação, já se pode acalentar as esperanças no Girabola?
No nosso acordo, a empresa patrocinadora não é a responsável da subida do Benfica ao Girabola ou a Unitel Basket. A direcção do Benfica precisa tirar proveito desse acordo de massificação para que os talentos a moldar não se percam quer na província quer no mercado nacional.

Quais são os pressupostos a ter em conta?
Do jeito que viemos ao Benfica, onde não existia nada, temos de pensar que também não há nada para fazer no Girabola. É verdade que é possível fazer uma primeira divisão, mas temos de continuar a bater às portas para encontrar um outro parceiro ou dar continuidade com o actual. Sem patrocinador não é possível nos aventurar regressar ao Girabola.

O Girabola está de parte?
Na nossa política desportiva, não estamos a ver regressar ao Girabola conforme as demais equipas. No passado, o Benfica ascendia e no ano seguinte era desprovido. Se um dia vier a anunciar o regresso do clube à primeira divisão, que fosse com cabeça, tronco e membro. Gostaríamos de permanecer por mais de seis anos e não mendigar. Muitos clubes vão com espírito de mendigo e descem no ano a seguir. Em função da minha experiência desportiva, o nosso desafio é encontrar uma base que permita a sustentabilidade no Girabola.

E a segundona também está fora da cogitação?
Podemos começar a perspectivar uma segunda divisão para expor os valores em lapidação no nosso projecto. É um dos meios que pode permitir alavancar o clube à fina flor do futebol.

Conseguir um patrocinador foi a vitória da direcção . Esses são os passos a seguir para um Benfica forte?
Acredito que sim. Quando chegámos à direcção do Benfica do Lubango, para lhe ser sincero, não tinha a noção de que o clube tinha perdido o patrocinador, não tínhamos a noção da falta de campo relvado, tão pouco o pavilhão não tinha as condições aceitáveis parta o seu uso. Não tínhamos noção de que nem o presidente do clube tinha um espaço de trabalho. Hoje, já nos sentimos confortáveis a falar num cadeirão. Isso era impossível. Até água jorrava aqui.

O quadro organizativo está invertido?
Sim. Hoje sentimo-nos honrados e abençoados. Deus ouviu as nossas súplicas, tanto nós, como outras pessoas que directa ou indirectamente nos têm acompanhado, tais como os trabalhadores, massificadores que continuam a trabalhar sem nenhum centavo no bolso, mesmo em período difícil, são chefes de famílias. Tudo isso para as pessoas compreenderem que o Benfica ainda está vivo. É desta possibilidade de sobrevivência que permitiu a alguém escutar o nosso clamor ao apresentar a ideia e projectos concretos. Demos um passo para que o Benfica volte a ser um clube de referência.

Falou em massificador. Que desportos foram eleitos?
Estamos a trabalhar com os massificadores da área de futebol. Recorda-se que o Benfica alcançou o segundo lugar do Girabola nos 1985-1986 com a designação de Desportivo da Chela. Pode ser uma boa referência. Com os filhos de casa e pessoas de boa vontade é possível refazer e trazer o futebol do Benfica com sucesso.

Já está preocupado com os ganhos?
Ainda não. Estamos a devastar o mato e a preparar o cenário. Os louros não vão ser colhidos por nós. Na minha perspectiva, posso pensar que o surgimento de um projecto já é um ganho, mas não é o louro. As pessoas passam, mas os escritos e as infra-estruturas ficam. Alguém poderá um dia reconhecer o trabalho dessa direcção. Poderemos sentir-nos honrados, naquilo que estamos a fazer, enquanto peregrinos desta terra e orgulhar-nos de que fizemos algo pelo clube. Não estamos preocupados com os resultados imediatos. Estamos preocupados com as coisas sustentáveis, que possam servir também para as futuras gerações.