Olimpáfrica está na cruzada da PGR para salvação

As lágrimas do Centro Olímpáfrica estão ressequidas.

As lágrimas do Centro Olímpáfrica estão ressequidas. A voz está rouca de tanto gritar. Ninguém o ouvia até há poucos dias. Em compaixão, Ana Paula Sacramento Neto vestiu-se de advogada. E tinha motivos para o fazer. A ministra da Juventude e Desportos tem pouco mais de três anos para salvar a imagem do desporto angolano. Afinal, o Estado investiu milhões de dólares norte-americanos na construção de infra-estruturas para dar a dignidade à prática do desporto. Os dinheiros foram concedidos. Alguns empreendimentos morreram antes do tempo útil concedido, outros nem do papel saiu. Todas as infra-estruturas estão pagas.
O Centro Olímpáfrica consta daquelas infra-estruturas que continuam no papel e paga. Desde o lançamento do projecto já se passaram muitos anos. Em busca da verdade, Ana Paula Sacramento Neto e a equipa descobriram verdades escondidas, entre as quais mais de dois milhões de dólares norte-americanos pagos para a construção do maior centro polidesportivo de Viana.
Com intuito de repor a legalidade, o Ministério da Juventude e Desportos apresentou uma queixa-crime na Procuradoria Geral da República (PGR) contra a empreiteira MJA - SU, entidade contratada e paga para construir o Centro Olimpáfrica.
"Aquando da tomada de posse da actual ministra, Ana Paula Sacramento Neto, fomos buscar todos os dossiers das obras programadas a nível nacional. Notamos que grande parte delas foram pagas na totalidade. As do Centro Olimpáfrica foi orçada em mais de dois milhões de dólares norte-americanos. Devido ao incumprimento do empreiteiro, encaminhámos o caso à PGR", revelou à fonte do Minjud.
As mãos da ministra estão lavadas, mas não estão secas. Continuam molhadas de tanto suor. Os marimbondos estão escondidos no desporto com rosto de bons cidadãos. O desaparecimento dos dois milhões de dólares norte-americanos em nome do Centro Olímpáfrica ocorreu durante o mandato do Gonçalves Muamdumba, actual Governador Provincial do Moxico.
Na fase de investigação, o segredo é absoluto. A PGR está fechada em copa sobre o assunto.
A empresa MJA - SU paralisou a obra há seis meses por indisponibilidade dos trabalhadores, que reclamaram salários atrasados. Sem trabalhadores, não há construção. O abandono tornou-se absoluto. Era o modus vivendi daquela época.
Com a apresentação da queixa-crime à PGR, a empreiteira MJA - SU procura de forma fria reactivar a presença no local. Uns reboques aqui outro lá no muro justificam o pagamento de dois milhões de dólares. A lentidão na execução da obra é mais frouxa que o passo do cágado.
Aquando da assinatura do contrato e do lançamento da empreitada, a empresa era denominada MJA - SU. Actualmente, tem a designação de COHEN e Construções, segundo a nossa fonte.
O Centro Olímpáfrica é um projecto do Comité Olímpico Angolano (COA), Ministério da Juventude e Desportos e Comité Olímpico Internacional (COI). Tem como objectivo promover a integração sócio-desportiva da comunidade de Viana e fonte de financiamento do COA. Além de 12 salas de aulas, comporta três pavilhões para desportos de sala, lutas e desportos náuticos.
É um empreendimento de carácter social constituído por uma área de exercícios de manutenção, edifício existente, polidesportivo coberto, estacionamento para 20 viaturas, polidesportivo fechado, escola primária, estacionamento para 50 viaturas, anfiteatro exterior, bancadas, campo de futebol 11, pista de atletismo, zona de serviços (carga e descarga), parque infantil, esplanada e estacionamento de 10 lugares.
Na bandeira de recandidatura de Gustavo da Conceição na liderança do COA constava a abertura do Centro Olimpáfrica. Os cidadãos deviam contribuir com dinheiro a utilização dos diferentes espaços, quer de forma individual quer colectiva. A escola, piscina de 25 metros, sala de musculação, campo de futebol e a pista de atletismo estariam a serviço de todos os interessados.

TEMPO DE EXECUÇÃO
Obras estão paradas há seis meses


As obras do Centro Olimpáfrica estão paralisadas, há seis meses. Apenas, o muro está erguido em toda à sua extensão. A quadra de futebol de salão foi retirada e cedeu o espaço aos alicerces de um provável pavilhão. Os ferros abandonados constituem perigo à saúde das crianças que deambulam naquele recinto. Estão envelhecidos e revestidos de ferrugem.
O lixo e o capim seco casam-se, em harmonia fraternal, nos espaços abandonos pela MJA - SU. A desolação acossa os agentes do desporto. São homens e pais de famílias, privados de viver o melhor do lazer. O desejo de ver o filho nadar ou a praticar uma arte marcial naquele recinto, continua a ser uma quimera.
Em meio da frustração, Cristino Nzinga desabafa a sua dor. O jovem treinador de futebol da Escola Vianense mostra-se desapontado, com as entidades responsáveis pela construção do Olimpáfrica.
"Estou triste com essa situação. Realizamos nesse recinto os nossos treinos e jogos, mas eles estão a coarctar o sonho de muitas crianças", desabafou.
Cristiano Nzinga revelou que é "testemunha" da situação que levou à paralisação da obra.
"A empreitada está paralisada há seis meses e presenciei o descontentamento dos trabalhadores. Estavam há seis meses sem salários. O responsável das obras é um jovem de nome Miguel", esclareceu.
Face à situação constrangedora, Cristiano Nzinga pede  responsabilidade aos incumpridores.
"O Executivo prometeu combater a corrupção e o nepotismo. É chegada a hora de se tomarem medidas,  a fim de ser responsabilizada a empresa contratada. Suspeito que seja uma empresa não reconhecida em Angola", disse.
O Jornal dos Desportos apurou, que a concessão da obra referente à construção do Centro Olimpáfrica, em Viana, à empresa MJA - SU não obedeceu aos requisitos da lei.
"Não houve concurso público para a adjudicação da obra à MJA - SU", disse uma fonte.    

ATÉ 2020
Luanda quer a rápida solução


A degradação do tapete de tartan do Estádio dos Coqueiros resulta da pressão que recebe todos os anos. Luanda, em particular, e Angola, no geral, não dispõem de outros espaços com equipamento semelhante para a acolher a prática de atletismo. A exclusividade a que se submeteu o Estádio dos Coqueiros deixa aborrecido a direcção da Associação Provincial de Atletismo de Luanda.
Para se ver livre da pressão, a sugestão vem de Pascoal Chitumba, o presidente da Associação de Luanda. O executivo apela aos órgãos de direito para a resolução da situação do Centro Olimpáfrica com a máxima urgência.
"A Associação de Luanda tem programado a realização dos campeonatos provinciais no Centro Olimpáfrica a partir do próximo ano. Peço a quem de direito que resolva o assunto urgentemente", solicitou.
Pascoal Chitumba sustenta que o espaço é de capital importância para o desenvolvimento e desconcentração do atletismo em Luanda.
"Temos apenas uma pista a do Estádio dos Coqueiros num estado lastimável. O do Olimpáfrica permitiria o desenvolvimento do desporto e a desconcentração da modalidade", frisou.
O treinador da equipa de atletismo do Petro de Luanda, Santana Lopes, tem à disposição 54 atletas. Todos os dias, as crianças e os jovens exercitam em situações calamitosas no Olimpáfrica. O especialista pede a rapidez na construção do empreendimento.
"Peço a celeridade das obras, porque nesse campo não há condições de trabalho. Labutamos com meia centena de atletas nos escalões de formação", pediu.
Além das equipas de atletismo do Petro de Luanda, também utilizam o recinto as do Interclube e a Escola de Futebol Vianense.                                  

IMPLICÂNCIA
Edna corre risco de vida


O contributo do desporto adaptado na promoção da imagem de Angola no exterior é um facto. As marcas de Armado Sayovo e de outras estrelas ainda ecoam no mundo. No Congo Brazzaville, a classificação de Angola nos Jogos Africanos deveu-se às medalhas desses heróis. A bandeira de Angola sempre vai ser içada em todas as competições, quando os nossos paralímpicos se apresentarem. À medida que uns deixam as quadras e as pistas, outros estão em formação. A manutenção da imagem de Angola tem custo na vida de cada um dos desportistas.
Edna tem 17 anos de idade e é atleta paralímpica da classe T46 (amputada dos membros superiores). O seu sacrifício diário é tão grande quanto Angola. Acorda às 5h00 para se deslocar ao Estádio dos Coqueiros. Do bairro da Estalagem, em Viana, onde vive, para o centro da capital, é distante.
Em busca do sonho, os perigos passaram a fazer parte da emenda de treinos da Edna. Todos os dias corre o risco de ser assaltada ou violada como muitas vezes aconteceu. As colegas desistiram dos treinos por terem sido vítimas de estupro.
"Muitas colegas minhas desistiram devido à distância entre casa e o local de treino. Tenho vizinhos que sonham ser atletas profissionais, mas estão à espera da conclusão das obras do Olimpáfrica", revelou.
A jovem Edna justifica o seu apoio aos vizinhos.
"Saio de casa para os treinos ao amanhecer. Nessa hora, ainda está escuro. Se o Centro Olimpáfrica estivesse concluído, escusava-me de levantar cedo e correr todos os riscos de vida para treinar no Estádio dos Coqueiros", esclareceu.
                      
CONCLUSÃO DAS OBRAS
Empreiteiro “brinca” de acabamento


A conclusão do Centro Olimpáfrica vai ocorrer a qualquer momento. Com ou sem a pressão das entidades competentes do Estado, a empresa MJA - SU garantiu a entrega da empreitada ao dono, sem precisar a data provável.
Em conversa com o Jornal dos Desportos, um dos funcionários da MJA - SU, que pediu anonimato, disse que a direcção está a fazer as demarches para acabar a obra.
"O meu patrão não fugiu. Os trabalhadores já não queriam prestar serviço, devido ao não pagamento dos seus salários. Todos os colegas foram em embora. Para concluir a obra, fomos contratados há um mês", disse um dos três funcionários encontrados no local.
A contratação da nova mão-de-obra está revestida de ilegalidade. O funcionário revelou que está sem contrato de trabalho e aufere um salário de 30 mil kwanzas por mês. Não têm seguros e não pagam impostos junto de entidades competentes do Estado como o Instituto Nacional de Segurança Social.
"Trabalhamos sem contratos e somos um total de 10 jovens trabalhadores para concluir a obra. Estamos aqui a pedido do meu patrão, o Miguel. Nesse momento, estamos a rebocar as paredes do muro", disse.
Pela dimensão da obra, um especialista em construção civil, que não quis ser identificado, disse ao Jornal dos Desportos que "há brincadeira de mau gosto".
"Em quanto tempo vai levar a conclusão de uma obra de elevada responsabilidade e dimensão com 10 funcionários?", questionou, antes de acrescentar: "só pode ser brincadeira".