Olimpáfrica sem pernas para andar

Uma jóia. Um Espaço. Um pólo. Em África. Nascido para servir o desporto, o projecto Olimpáfrica está longe de cumprir o desiderato. O terreno parcialmente fechado apresenta aberturas de acesso a todos os animais "diambulantes" de Viana. O muro de tijolo envelheceu e apresenta brechas para as pessoas encherem o recinto de lixo. O pólo desportivo de Luanda é uma "Maria vai com todos".

Quando Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional, tomou contacto pessoal com o projecto Olimpáfrica, em 2017, visou conferir maior dignidade às actividades desportivas comunitárias. Viana entrava na história das rotas de visitas de um membro do COI. A esperança do país erguer um dos melhores espaços para a prática desportiva era mais bem viva. Em cada rosto dos angolanos presentes naquele acto estampava a felicidade. Já se vislumbravam a relva sintética, a pista de tartan e a iluminação total, promessas de António Monteiro, secretário geral do Comité Olímpico Angolano.
A alegria foi sol de pouca duração. Uma miragem. Passados pouco menos de 12 meses, o recinto pode desaparecer sob o olhar atento das entidades políticas e desportivas, quer as de Viana quer do Comité Olímpico Angolano. As ravinas crescem de mansinho e fazem companhia a centenas de crianças e de jovens que acorrem aquele espaço diariamente.
O perigo mora no Olimpáfrica. A poucos centímetros da pista imaginária está os primeiros sinais da ravina que pode engolir o campo. Ainda é pequena, mas com consequências gravosas na saúde das crianças e dos jovens desportistas que praticam o atletismo e o futebol.
Luanda vive período de graça de chuvas. Se São Pedro decidir abrir as torneiras ao máximo num período acima de seis horas, o Olimpáfrica vai ser engolido. A cratera vai crescer à proporção da chuva.
Se o desnivelamento do espaço é perigoso, as crianças e os jovens também estão sujeitos a alistar-se às enfermarias das unidades hospitalares dos bairros. O lixo reclama o seu direito de assistir aos treinos. A população circunvizinha encontrou no Olimpáfrica o \"contentor\" ideal para o depósito. As moscas e outros vectores convivem com os praticantes de atletismo e de futebol.
O projecto morre solteiro. Em dia de chuva, as equipas cancelam os treinos. E nos dias de treinos, os atletas confrontam-se com porcos, cães e galinhas. Um circo a céu aberto. Os animais impõe a sua vontade. A falta de vedação permite a entrada dos domesticados.
No verdadeiro projecto Olimpáfrica constam balneários. Infelizmente, na hora do aperto, os treinadores e os atletas são obrigados a desfazer-se dos apertos da bexiga, afastando-se a uns metros do espaço de treino.
O projecto Olimpáfrica foi implementado em Angola em 1992. A sua primeira fase foi concluída em 2001. Desde então está em estado de abandono. Em 2015, por ocasião do aniversário do COA, fundado a 17 de Fevereiro de 1979, foi anunciado o reinício das obras no âmbito da sua inserção no Programa de Investimentos Públicos pelo Ministério da Juventude e Desportos.
O Complexo, além da vedação em toda a sua extensão, que está parcialmente destruída, contempla um campo de futebol \"pelado\", uma quadra para a prática de basquetebol e de voleibol, um pavilhão multiuso, numa área de 1096 metros quadrados. Também consta a sede do COA, que deve ocupar uma área de 2.287 metros quadrados.
Aquando da inauguração, Olimpáfrica era rodeado de espaço verde. Hoje, encontra-se circundada por várias residências e com pouca vegetação. O recinto é gerido pela Escola Vianenses e os clubes interessados utilizam-no gratuitamente.
Actualmente, o espaço é frequentado por cidadãos isolados ou em associação para a prática de várias modalidades desportivas. Equipas federadas como o Petro de Luanda e o Interclube aproveitam-no para a modalidade de atletismo, enquanto a Escola de Futebol Vianenses aproveita-o para o futebol nos escalões de juniores, juvenis, infantis e iniciados.

ATLETISMO
Petro de Luanda aposta na formação

Em busca de contrapor a balança dominado pelo Interclube, o Petro de Luanda trabalha com crianças de diferentes faixas etárias na modalidade de atletismo. A direcção de Tomás Faria controla 42 inscritos com idades compreendidas entre 10 e 20 anos nas especialidades de velocidade, meio fundo, salto e estafeta.
Em manhã aquecida pelo \"rei\" sol, as crianças e adolescentes aprendiam mais uma técnica. O grupo compacto exercitava trabalhos físicos sob a orientação de Santana João. O treinador corrigia com paciência. Nos rostos dos petizes vislumbrava a alegria. A inocência da vida não descortinava os perigos a que estavam sujeitos.
Em declarações ao Jornal dos Desportos, Santana João lamentou o estado degradado da infra-estrutura.
\"Treinámos no pelado e não há balneários. Quando chove, as equipas não treinam e está a abrir-se uma cratera.  As condição do recinto são péssimas\", deplorou.
O treinador do Petro de Luanda queixou-se também da falta de material desportivo para levar a bom porto a preparação dos atletas.
\"A direcção do clube apoia-nos com a equipa médica, alimentação e transporte, mas falta o material desportivo e técnico\", sustentou.
Santana João avaliou que se o campo do Projecto Olimpáfrica for bem aproveitado, pode tornar-se no maior pólo desportivo no município de Viana.
\"O Interclube e o Petro de Luanda trabalham no atletismo e uma equipa de futebol realizam aqui os seus treinos. esse campo bem aproveitado, em termos de condições, pode tornar Viana no maior pólo desportivo\", prognosticou.
O técnico petrolífero agradece o apoio prestado pela Federação Angolana de Atletismo.
\"Agradeço a Federação Angolana de Atletismo, junto do Director Técnico da selecção nacional, Orlando Bonifácio, pela sua presença constante; acompanha a preparação de todas as equipas\", reconheceu.                                 

NO EIXO-VIÁRIO
Primeiros troféus engordam a galeria

As primeiras colheitas da escola de atletismo do Petro de Luanda começam encher a galeria de troféus do clube do eixo-viário. A equipa orientada por Santana João existe há quatro anos e dispõe de dois campeões provinciais. Trata-se de Maria João e de Faustino João.
De 15 anos de idade, Maria João conquistou o troféu atribuída à campeã de corta-mato da classe de Sub-17. A promessa petrolífera superou as adversárias a meio do último mês na floresta da Ilha de Luanda.
No mesmo espaço, Faustino João, de 16 anos de idade, foi o mais rápido que os concorrentes.
O prestígio do Petro de Luanda já chegou à selecção nacional. A pré-selecção convocada para os Jogos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em Julho próximo em São Tomé e Príncipe conta com seis integrantes dos tricolores. Trata-se de Maria João (15 anos), Faustino João (16) e Francisco Caxito (16) todos da selecção de Sub-17; Joaquim Gonçalves (17), Maurício Tchilamba (17) e Pedro Cussina (17)  estão na selecção de Sub-20.
A presença dos atletas a serviço do país deixa regozijado o treinador Santana João. Já começamos a colher os frutos: vencemos o campeonato provincial de corta-mato com Maria João e Faustino João. Temos seis atletas convocados para a pré-selecção que vai disputar os jogos da CPLP e da SADC, em Dezembro no Botswana\", disse.
O Petro de Luanda trabalha com 42 atletas em ambos os sexos.

VENCEDORES DE CORTA-MATOS
Campeões clamam a apoios

De 15 anos de idade, a medalha de ouro do Campeonato Provincial de Luanda de corta-mato, Maria João, clama a apoios para elevar a sua performance. A pré-seleccionada para os Jogos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e os Jogos da SADC reclama de \"apoio material desportivo e melhoria de campo de treino\".
\"Treinamos num campo com desnivelamento e esses pequenos buracos podem provocar-nos lesões. Apelamos às entidades responsáveis a tomar medidas que visem suprir as nossas necessidades\", disse.
Maria João enalteceu o apoio da direcção do Petro de Luanda.
\"Recebemos apoio médico, transporte e alimentação\", disse.

FAUSTINO JOÃO
ESTÁ SATISFEITO
O atleta tricolor de 16 anos de idade, Faustino João, vencedor do provincial corta-mato em Sub-17, mostrou-se satisfeito com as condições encontradas no clube, mas lamenta o estado degradado do campo Olimpáfrica.
\"Estou satisfeito com as condições da nossa equipa, mas lamento o estado degradado do campo Olimpáfica. Quando chove, não conseguimos treinar\", deplorou o campeão.
Nesse momento, o Petro de Luanda participa do Campeonato Nacional de corta-mato em juvenis, na província da Huíla, desde o último sábado.