Rui Garcia revela contestação no início na Académica do Lobito

A excelente campanha protagonizada pela Académica do Lobito no Girabola Zap 2018, em que terminou na quinta posição, teve a mão do treinador Rui Garcia, desconhecido por muitos antes da saga vitoriosa na prova, embora tenha trabalhado no Interclube como preparador físico na época 2016.

A excelente campanha protagonizada pela Académica do Lobito no Girabola Zap 2018, em que terminou na quinta posição, teve a mão do treinador Rui Garcia, desconhecido por muitos antes da saga vitoriosa na prova, embora tenha trabalhado no Interclube como preparador físico na época 2016.
A Académica do Lobito fez história com Rui Garcia no comando, no primeiro ano em que orientou uma equipa de futebol nas veste de treinador principal, época em que conseguiu colocar de sentido os papões 1º de Agosto (campeão nacional) e Petro de Luanda (vice-campeão), embora tenha sido bastante contestado no início da temporada pelos adeptos e pela massa associativa do grémio lobitanga.
O trabalho desenvolvido na Académica do Lobito no Girabola Zap 2018, valeu ao técnico Rui Garcia o regresso ao Interclube, porém na condição de treinador principal, em substituição de Paulo Torres, que se transferiu para o Kabuscorp do Palanca, embora este não confirma nem desmente.   Ainda assim, Rui Garcia, entrevistado pelo Jornal dos Desportos para fazer o balanço da última época, disse que a missão não foi fácil, pois o clube lobitanga atravessa(va) uma grande crise financeira. 
\"O campeonato nacional correu bem no sentido de que tínhamos um objectivo e uma estratégia traçada, tendo em conta as dificuldades do clube do ponto de vista financeiro, o que nos limitou na formação do plantel, mas mesmo neste sentido conseguimos construir um plantel à medida do que era as nossa necessidades. O objectivo traçado pela direcção do clube era garantir a permanência mais cedo e neste sentido conseguimos com muita antecedência. Terminámos a época numa posição que não reflecte a realidade do clube, o que espelha o bom  resultado que os atletas fizeram ao longo da época\", disse.
Rui Garcia salientou que quando surgiu o convite para treinar a equipa da Académica do Lobito, numa altura em muitos atletas haviam abandonado o clube, não pensou na qualidade do plantel, pois tinha noção de tudo, uma vez que já havia trabalhado no clube.
\"Quando a proposta chegou, em conversa  com o presidente, eu não pensei muito no plantel, porque uma equipa como a Académica do Lobito que todos os anos luta com dificuldades, nunca tem planificação previa como um Petro ou 1º de Agosto ou Interclube e saber  o que vai fazer na próxima época. A Académica depende de patrocínios e neste sentido tinha uma noção da equipa, pois já tinha trabalhado lá há três anos como preparador físico e sabia que existia uma estrutura de plantel,  o núcleo duro, que poderia servir de base para construir o plantel\", salientou. 
Com base nisso, avançou Rui Garcia, \"a partir do momento que aceitei (o convite) fomos contactando este jogadores e formamos o plantel com base neste atletas, depois  juntando um ou outro atleta que satisfizessem a necessidades do plantel  e com o perfil humano de acordo com a minha forma de estar e de jogo e neste sentido tive sorte, porque consegui encontrar jogadores que correspondia aos requisitos e foi assim que conseguimos montar a equipa\", avançou.
 Questionado se foi difícil montar a equipa  que fez um brilhante no Girabola Zap 2018, onde terminou na quinta posição, Rui Garcia disse:
\"Foi muito difícil, pois como sabe, neste clube (Académica) aparecem sempre jogadores para testar , pois não há condições para contratar jogadores.
Tivemos que fazer a triagem de jogadores que foram dispensados de outros clubes, e pelo conhecimento que tenho do Girabola, consegui construir  um plantel a minha imagem e felizmente as coisas correram bem\", reforçou. Rui Garcia recordou, com tristeza, a forma como foi tratado pelos agentes desportivos no Lobito. Segundo ele, tal postura afectou muito, porém teve forças para mostrar as suas reais capacidades em prol do clube.  
\"No começo eu fui contestado por toda gente ligada ao futebol. O problema é que o ser humano julga sem conhecer, sem saber das competências da pessoa, mas eu acredito nas minhas competências e no meu trabalho.
Dizer que não afectou seria mentir. Afectou  muito mas superei isso com trabalho constante e com humildade, sempre orientado  para atingir os objectivos da direcção do clube. Isso deu-me força de continuar a trabalhar \", sustentou.

CONTESTAÇÃO DOS ADEPTOS
Rui Garcia pensou em desistir

A postura dos adeptos e algumas pessoas ligadas ao clube Académica do Lobito, ainda na pré-época, por pouco fazia o treinador Rui Garcia abandonar o cargo de treinador principal da Académica do Lobito.
Segundo ele, ao optar por realizar um jogo-treino com o 1º de Maio de Benguela, utilizando jogadores que estavam à experiencia no clube, poderia ter sido fatal, pois a derrota por 5-0, originou a invasão de campo e quase foi agredido.
\"Em Janeiro deste ano, quando fizemos o último jogo da pré-época com o 1º de Maio e numa altura que tínhamos a base da equipa indisponível, tive que optar  por jogar com atletas que estavam à experiência e perdemos por 5-0. Houve uma forte contestação, os adeptos invadiram o campo e quase fui agredido.
Naquele dia senti a minha vida em perigo e pensei em desistir de tudo mas quando cheguei a casa, reflecti melhor e achei que não havia razoes para desistir.
Aliás, não é como começa mas sim como termina. Acredito no meu trabalho, se desistisse estaria a dar razão aos adeptos, mas como sou uma pessoa de convicções, achei por bem seguir em frente\", disse.
Rui Garcia lembra que a posição dos adeptos foi uma constante no ano desportivo e acredita que tenham sido instigados por algumas pessoas ligadas ao clube que não o queriam ver á frente do comando técnico da Académica.
\"A posição dos adeptos foi constante do começo da época até ao fim. Nunca estiveram contentes. Houve sempre uma resistência em relação a minha pessoa e não percebo por que razão, se calhar instigada por pessoas relacionadas ao clube.
A minha escolha foi feita pelo presidente (Luís Borges), que sempre apoiou, mesmo nos momentos que a equipa oscilava, mas no fundo eu compreendo, pois eles só querem os resultados e não sabem o que é necessário fazer para ter esses resultados\", disse o treinador, tendo acrescentado o seguinte:
\"Sempre trabalhámos para dar esses resultados a eles e foi isso que fizemos ao longo da época. Contrariamente o que aconteceu nas épocas anteriores, a Académica foi uma equipa equilibrada do ponto de vista dos princípios de jogo, consolidou e foi capaz de jogar de igual com qualquer equipa do Girabola Zap.
 Antes ia para o campo com os grandes e tentavam não perder  por muitos golos, hoje já entra em campo e joga olhos nos olhos e prova disso foram os resultados que teve, ou seja, não perdeu com os chamados grande,  com excepção do Kabuscorp em casa deles\", referiu.

 AVALIAÇÃO
\"Girabola foi muito competitivo\"

O último Campeonato Nacional de Futebol da Primeira Divisão, Girabola Zap, cujo vencedor foi o 1º de Agosto, foi bastante competitivo na visão do antigo treinador da Académica do Lobito. Para ele, hoje as equipas angolanas já trabalham melhor do ponto de vista físico e táctico.    
\"O Girabola Zap deste ano (2018) foi muito competitivo, embora muita gente diz o contrário. Neste último campeonato ficou patente que já se trabalha melhor. Fisicamente  e do ponto de vista táctico há melhorias. Hoje já se vê treinadores com  princípios de organização defensivas, o que não acontecia no Girabola Zap\", disse.
O antigo treinador dos estudantes deu como exemplos a boa prestação das formações do Sporting de Cabinda, do Desportivo da Huíla e da própria Académica do Lobito no campeonato ganho, este ano, pela terceira vez consecutiva, pelo 1º de Agosto. 
\"O reflexo disso são os resultados  que o Sporting de Cabinda, Desportivo da Huíla, Académica do Lobito e outras equipa que a cada dia vão fazendo frente as equipas grandes do nosso campeonato. Muita gente diz que o Petro de Luanda, 1º de Agosto, Interclube não estiveram bem, eu digo as outras equipas é começaram a trabalhar bem e dificultaram as equipas grandes. Eu acho que o Girabola está no bom caminho e devemos melhorar cada vez mais\", rematou.

GIRABOLA ZAP 2018
\"Admiti que iríamos fazer história\"

Rui Garcia teve receio em assumir o cargo de treinador da Académica do Lobito, quando foi abordado pela direcção do clube, porém, assegurou que após dar o \"sim\" ao presidente Luís Borges, disse aos jogadores que poderiam fazer história no Girabola Zap 2018, o que aconteceu. 
\"Não posso negar que havia um certo receio em assumir o cargo de treinador principal.
Quando passas de treinador-adjunto para principal as pessoas olham com algum descrédito, o que é natural. Houve momentos que eu vacilei. Será que vou conseguir?  Mas disse pra mim mesmo que não posso viver a vida no \"se eu tentasse\" e tinha que tentar para saber qual é o resultado.  Foi neste sentido que aceitei e me envolvi no projecto e daí o resultado\", disse.
A possibilidade em fazer história na Académica do Lobito, como aconteceu, ficou patente em Rui Garcia após a disputa do jogo diante do Recreativo do Libolo, em Calulo, referente à terceira jornada do Girabola Zap, apesar da derrota por 1-0. 
\"No começo da temporada  olhei para os meus jogadores e disse: vamos fazer história. Eles (atletas) ficaram na dúvida e eu disse que no Girabola, uma equipa que é táctica e rigorosa é campeã e depois do jogo com o Libolo, disse igualmente aos atletas que iríamos estar lá em cima e assim foi\", sublinhou.
 O treinador teve tal convicção pela forma com os jogadores interpretaram os conceitos de jogo, pois existiam, como disse, formas para consolidar as rotinas e formas defensivas. \"Conforme a equipa interpretou os princípios de jogo em Calulo, verifiquei que havia formas de consolidar rotinas e as formas defensivas e perceber que a equipa não iria perder muitos jogos.
Do ponto de vista da organização defensiva a Académica do Lobito foi sempre  consistente. Tivemos problemas no processo ofensivo, porque não tínhamos um ponta de lança que fosse eficaz. A verdade é que estar em cima da tabela classificativa não era a realidade do clube, mas sim fruto do trabalho dos atletas\", reforçou.
 O treinador pensava em continuar na Académica do Lobito, o contrato de trabalho era de apenas um ano, mas a falta de condições e a proposta de um clube com mais ambições, no caso o Interclube, fez com que não renovasse com os lobitangas.
\"Para ser sincero, gostaria  de continuar na Académica do Lobito, foi uma coisa que iniciou e agora teria continuação, acredito que teríamos bons resultados, não para ser campeão, mas para consolidar a dinâmica desportiva e dar mais  consistência na gestão do clube. Uma equipa para crescer precisa  por ai dois a três anos de trabalho para formatar uma equipa para vencer.  Mas isso é apenas um desejo não acredito que o meu futuro passe por ai\", sustentou.

COMO PREPARADOR FÍSICO
Técnico recusa ser adjunto no país

A experiência como treinador principal de uma equipa sénior em Angola, na última época, deixou uma certeza a Rui Garcia: Jamais trabalhará como adjunto em qualquer clube nacional.    \"Quando fui convidado pelo presidente do Académica (Luís Borges) fui bem claro:  como preparador físico não trabalho mais com treinador nenhum, prefiro desistir do futebol, pois tenho competências para trabalhar noutras áreas ou noutras partes do mundo.
Aqui (em Angola) houve experiências negativas que marcaram muito, daí não querer abraçar nenhuma carreira de preparador físico aqui em Angola. Tenho formação  na área de fisiologia e da preparação física.
O meu conhecimento táctico e os treinadores com quem trabalhei, um deles é Bernardino Pedroto, que foi a minha maior experiência, permitiu perceber que aliando as duas coisas eu posso fazer o meu trabalho, porque existem treinadores  que as vezes querem opinar sobre os aspectos físicos sem conhecimento e depois acabam por atrapalhar o trabalho físico e a própria equipa acaba por perder e quem fica manchado é o preparador físico. Pensando neste sentido, não vou trabalhar com mais ninguém, quero ter o meu projecto e ter ajuda de um preparador  físico que eu possa orientar e fazer o trabalho comigo\", realçou. 
Questionado se isso tem a ver  com a última experiência como preparador físico, vivida no Interclube, Rui Garcia disse que não foi das melhores.
\"Foram várias experiências. No Interclube trabalhei com Paulo torres, que é um treinador com muito qualidade e que eu admiro. Foi uma experiência mas não das melhores,  até porque o meu contrato não foi renovado, porém não pela falta de competência mas sim por outras razões as quais não compreendi e isso deixou-me decepcionado\", disse.
 Rui Garcia acredita que alguns treinadores não valorizam o trabalho do adjunto e do preparador físico, o que para ele é compreensível, pois pretendem ver a equipa render e acham que podem gerir todo o processo.
\"De certa forma é compreensivo, eles (treinadores principais) querem ver a equipa a render e acham que tem que gerir todo processo. Acho bem dominar o processo todo, mas também têm que dar margem para as pessoas trabalharem e neste sentido, depois  vê a competência do preparador físico ou não.
Dentro da minha experiência no trabalho com os treinadores e o Pedroto é um dele, tem confiança no meu trabalho e as equipas como a Académica do Lobito, tendo em conta os poucos recursos, tive que chamar alguém para ser o preparador físico  e a nossa equipa esteve sempre bem. O treinador  ou confia no preparador físico ou não . Se não confia deve trabalhar sozinho e nunca meter em causa o trabalho do preparador físico\", reforçou.